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Provocações filosóficas: olhares diversos

Por: Claudinei Pereira
Mestre em Filosofia Ética e Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).


“Os filhos da noite”: maternidade e prostituição no especial dia das mães


Data: 09/05/2021 05:54

Imagem Ilustrativa

Mulheres batalhadoras, que vivem entre luzes misteriosas e movimentos reluzentes. Essas são as mães prostitutas. Numa reportagem do ano de 2019, no programa televisivo, Conexão Repórter, o apresentador Roberto Cabrini apresenta a rotinas das mulheres prostitutas que lutam para cuidar dos seus filhos. As suas rotinas são duras: vivem entre o luxo e a escassez, entre o amor e o desprezo. Ademais, a reportagem jornalística exibe a vida árdua de várias mães que lutam para proporcionar dias melhores para os seus filhos. 

No diálogo com uma das entrevistadas, tendo como nome fictício Dara, Cabrini faz a seguinte pergunta: “o que você seria capaz de fazer pelo seu filho?”. A mesma de modo convicto respondera: faria qualquer coisa. Retrucou o jornalista: o que seria fazer qualquer coisa? Matar ou morrer, disse ela.

Dara demonstra uma aparência de uma mulher sofrida. Sofrida pelo amor, pelas decepções amorosas, pelos conflitos de casa, pela falta de oportunidade que a vida de algum modo não lhe oportunizara. Mas quem é a Dara afinal? Respondera ela: “Dara é uma mulher da noite, que alimenta fantasias e que promove ilusões. Eu ganhei dinheiro nesse inferno que transformou o meu céu”. 

A sua convicção nas suas respostas mostra uma mulher de personalidade forte e de fibra e que não tem medo dos desafios da existência. Não aceita críticas sobre o seu trabalho e muito menos que seja menosprezada pela vida que leva. Entretanto, fora dos palcos da zona do meretrício, Dara é mulher de casa como todas as outras mulheres. Mãe de um filho de 6 anos e outro de 16 anos. Ela só deseja uma coisa: dá o melhor para seus filhos! Duas faces antagônicas, mas que se explicam. A vida do lar e a vida do meretrício. 

Outra entrevistada tendo como nome de Rafaela diz que a vida da prostituição não é tudo aquilo que se mostra na mídia: que são abusadas, violentadas, etc. Não. Segundo ela, encontramos pessoas boas. Rafaela é uma mulher bonita, atraente, cuida aparentemente do corpo para atrair sua clientela. Segundo ela, chega a ganhar 15 mil por mês com a prostituição, contudo, 8 mil vai de todo coração para seu filho e seus cuidados. Rafaela relata que sua decisão fora difícil quando resolveu entrar para vida de garota de programa: “só tinha em casa leite e farinha láctea”. Se vendo com o filho pequeno, aluguel para pagar só bastara 5 dias para se decidir pela vida do meretrício, de lá para cá, nunca mais deixara esta profissão que lhe proporciona conforto e um futuro para o seu filho. “Eu quero dar tudo aquilo que não tive para ele, disse ela”. 

Esses são apenas dois exemplos entre milhares de outros casos que fazem dessa profissão uma das mais enigmáticas, criticadas e sedutoras da história humana. São noites que viram dias e, dias que viram noites. Muitas vezes vivem de 12 horas nas suas jornadas de trabalho. Para suportar a fadiga e a clientela é preciso está em alerta à noite toda. É preciso mais do que um copo de cerveja, uísque e drogas para estarem em alerta. Do contrário, basta apenas um cochilo para perder o cliente mais esperado da noite. 

Um caso interessante é da pesquisadora, escritora e ativista uruguaia Karina Nuñez, mulher de 47 anos que escrevera "El ser detrás de una vagina productiva" ("O ser atrás de uma vagina produtiva"). A autora é hoje segundo a pesquisa da Folha de São Paulo uma líder sindical conhecida em seu país, tendo em sua agenda não só os direitos das mulheres e das trabalhadoras do sexo, mas também o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. Hoje, a principal pauta que move Karina é a aprovação de uma renda básica para trabalhadoras do sexo devido à pandemia de coronavírus.

"Podemos conseguir pelo menos que elas possam pagar pela moradia. Há muitas colegas que infelizmente ficaram sem-teto porque não conseguem pagar aluguel”.

Entretanto, há de se observar que quando nos referimos ao universo da prostituição devemos considerar todos os seus aspectos. Mas, porque falar das mães prostitutas num especial dia das mães? Não seria mais agradável lhe fazer uma homenagem como muitos estão ou irão fazer neste domingo? Sim, isso é importante para uma grande maioria. Faça as suas homenagens, declarações, mas não se esquive da realidade ao qual boa parte das mulheres e mães passam neste dia aparentemente feliz: a invisibilidade e a falta de respeito diante das suas escolhas e a luta pela dignidade do trabalho. Isso não é uma afirmação, mas uma constatação. 

Dificilmente você encontrará algum pai que deseje ou sonhe com um filho (a) gay assim como não deverá encontrar algum deles que sonhem em ver o filho (a) na prostituição. Somos resistentes. Buscamos e desejamos em certa medida a liberdade em relação ao outro, mas a partir dos nossos moralismos e cosmovisões de mundo. Talvez nos assemelhamos aos fariseus e doutores da lei dos evangelhos  “com suas pedras nas mãos” em plena prontidão esperando a primeira oportunidade para lançá-la. Esta é a visão mais como: “o que há é a convicção de que a prostituta constitui uma ameaça à família e à sociedade, por isso, deve ser castigada”.   

A zona do meretrício é um lugar duro, não só pelos trabalhos de grandes mulheres, mas exatamente pela condição de desvelamento ao qual elas proporcionam a cada um dos moralistas, isto é, “aos desvarios dos lupanares, das zonas-de-perdição, dos bares fedorentos e da marginalia em geral, onde a vida e a existência se mostram como realmente são, descortinando as taras e as misérias secretas de cada um.”  

Talvez seja duro este discurso, mas imagine o quanto é mais duro à vida dessas várias mulheres. Muitas esperam que sejam vistas pelos governantes e autoridades; por terem as suas carteiras assinadas, por um lar e uma condição digna de existir. Nada mais justo. Os homens congressistas e de poder do Estado deveriam suspender os seus contratos “proibidos” e que custam caro ao Estado e ao bolso do contribuinte e olhar para aquelas que buscam o cuidado da casa, do cuidado com os seus filhos e pela busca de um lugar digno para morar. Talvez este seja o grande desafio da modernidade. Aliás, o que é a modernidade? Para Ezio Bazzo, “é o momento em que toda puta pode dizer eu trabalho, e que todo trabalhador (a) pode afirmar eu sou uma puto (a)!” 

Fontes pesquisadas:          

BAZZO, Ezio. Prostitutas, bruxas e donas de casa: notícias do Éden e do calvário feminino. Brasília: LGE, 2009. 

FOLHA DE SÃO PAULO. 'Minha filha é a primeira da família, após quatro gerações de prostitutas, a ir para a faculdade e o orgulho não cabe no meu peito'. Disponível em:https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2020/12/minha-filha-e-a-primeira-da-familia-apos-quatro-geracoes-de-prostitutas-a-ir-para-a-faculdade-e-o-orgulho-nao-cabe-no-meu-peito.shtml. Acesso em: 07 de Maio de 2021. 

PEREIRA, Armando. Prostituição: uma visão geral. 2. ed. Rio de Janeiro: PALLAS, 1976.                                                                                   


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