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Provocações filosóficas: olhares diversos

Por: Claudinei Pereira
Mestre em Filosofia Ética e Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).


Como manter os pés na Terra? Pandemia, crise sociopolítica e o que ainda há por fazer


Data: 25/04/2021 10:04

Na minha coluna dominical, convidei o amigo Ricardo Avalone, Filósofo e Professor, Especialista em Estudos Clássicos, Mestre e Doutorando em Filosofia, para fazer uma abordagem sobre as consequências da pandemia da Covid-19.

Ricardo Avalone

“Vivemos tempos sombrios”. Essa frase não soa familiar? Bertolt Brecht disse isso em um poema importante, em meados do século XX. O título é ainda mais significativo: “Aos que vierem depois de nós” (seguindo a tradução de Manuel Bandeira). Hannah Arendt, em uma conhecida antologia de ensaios intitulada “Homens em tempos sombrios” afirmou de maneira sugestiva que nesses tempos “as piores pessoas perderam o medo”, enquanto “as melhores perderam a esperança”.

Hoje em meio à pandemia do Covid-19 em 2020 poderíamos dizer o mesmo. Sim, vivemos tempos sombrios... 

Mas repetir sem refletir sobre a especificidade dos problemas de hoje não ajudaria muito. Para entender em que sentido nos encontramos em “tempos sombrios” é indispensável meditar sobre os desafios atuais. É por isso que propus a pergunta que dá título ao texto: como, de fato, podemos manter os pés na Terra? Ou, como indagaram em 2015 Deborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro: há um mundo ainda por vir? 

Essa questão implica a reflexão sobre a possibilidade de a nossa espécie desaparecer, extinguir-se, não mais poder manter portanto os pés nesse chão. Apesar de tantos indícios, a resposta à pergunta não é evidente em um primeiro momento. Por isso é comum ouvir ou ler discursos que sugerem soluções insuficientes diante da gravidade dos problemas que vivemos. 

Se se pode perceber com tanta nitidez a crise que ameaça a nossa sobrevivência, é que não se trata de “mera” crise econômica ou política. O problema não é a tão citada “polarização” – pois para haver polarização é necessário haver um aumento das divergências entre as atitudes políticas dos polos ideológicos que se encontram nos extremos. O que temos no entanto é apenas um extremo ideológico (no campo da direita) ocupando de forma incisiva o espaço e o debate públicos de forma explícita. A esquerda se encontra majoritariamente em uma posição de centro; a polarização então é falsa e seria muito útil procurar o problema em outro lugar. 

Evitar o (auto)engano sem dúvida é importante para mantermos nossos pés onde queremos. A crise não é apenas econômica, ou apenas política, consequência infeliz de uma suposta polarização. Não é nem mesmo “apenas” moral, religiosa, social, histórica, ambiental ou educacional – é na verdade uma crise civilizacional que abrange tudo isso. Responder à pergunta que nos inquieta é algo que só pode ser feito a partir da compreensão dos principais problemas que nos acometem. São tantos! Não há como tematizar todos aqui, mas é possível e necessário citar alguns. 

Tratemos, por exemplo, da pandemia do Covid-19. Como surgiu? Por quais razões funestas é tão difícil lidar com ela? Não há como negar que esse vírus revelou as contradições sociais com muita competência e tornou impossível sustentar a artificial coerência dos discursos liberais.

A resposta acerca do surgimento do vírus não está tão distante: nossos hábitos alimentares e os recursos demandados por eles. Comer carne nunca pareceu um ato menos inocente do que após o advento do Covid-19. Além da alta demanda de água, das vidas dos animais sacrificados, das queimadas, da extinção de diversas espécies, da destruição de diversos biomas, do controle indevido de grandes extensões de terra por poucos proprietários do ramo do agronegócio, além também da desigualdade, tem-se o fato aterrador e difícil de aceitar para tantas pessoas: comer carne é um ato aparentemente simples que no entanto ocorre em uma trama complexa de fatores que culminam em consequências fatais não apenas para o Outro, mas também para quem come. 

Os cientistas que estudam o Sistema Terra poderiam dizer que isso é consequência de algo chamado “retroalimentação”. Isso significa que nossas ações não se desenvolvem de forma isolada e, portanto, não podem ser compreendidas isoladamente. Assim, é preciso observar as respostas desse sistema com a mesma atenção que as nossas ações ocorrendo simultaneamente em um sistema instável e dinâmico. Fazemos parte de coletivos que envolvem diversos agentes e mobilizam céus e terra, natureza e cultura. Tudo o que fazemos gera efeitos que fortalecem ou enfraquecem as redes que tecemos a partir das nossas alianças, ações, construções, divergências, convergências, decisões. Não há mais a possibilidade de considerar que a carne surge magicamente embalada na prateleira. É preciso pensar no seu modo de produção, de circulação, nas implicações e consequências de seu consumo. A consequência mais sentida agora, a mais dolorida, é o Covid-19. Esta não é a primeira consequência e nem será a última. Além da gripe suína, da gripe da vaca louca, do Ebola, do Sars-Cov-1 e assim por diante, é possível citar também o aquecimento climático. Mas esse é um outro assunto.

Situar a emergência do Covid-19 como consequência da ação humana, do seu modus vivendi e tudo o que ele implica, torna mais fácil perceber que instituições e práticas mediam nossa relação desequilibrada com o meio ambiente, com as demais espécies e também com seres humanos de gêneros, classes e “raças” diferentes. Entre as instituições vale a pena mencionar como principal responsável com Rob Wallace (a partir do seu livro “Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência”), o agronegócio.

Entre as práticas, além dos mencionados (maus) hábitos alimentares, é importante destacar aquelas relacionadas ao modelo de democracia vigente no Brasil e em outros países: o de democracia liberal e a principal consequência de sua instituição, a vigência de um sistema eleitoral que sustenta o projeto de (pseudo)representação popular por parte de um seleto grupo de políticos geralmente alinhados com interesses mercadológicos. 

Esse sistema político comum é conveniente para a manutenção dos interesses do mercado em detrimento das demandas sociais: é incapaz de promover uma sociedade igualitária, incapaz de promover soberania popular e justiça. Se antes essas limitações eram menos visíveis, hoje já não são mais: a sua impossibilidade de lidar de forma sustentável com crises sistêmicas que ameaçam as vidas de milhões de pessoas se tornou patente. Essa insuficiência não se deu por uma falha passível de correção, mas sim por uma característica essencial do próprio capitalismo e da gestão liberal das catástrofes engendradas pelo sistema econômico em questão. 

Para manter os pés na Terra, provavelmente esse problema terá de ser encarado de frente. Encará-lo envolve mudar a relação consigo mesmo e com o mundo, considerando os impactos das nossas ações na complexa teia de relações entre os seres vivos, superando no plano político o individualismo, a ignorância seletiva sobre as consequências sociais e ecológicas das nossas ações e a expectativa ilusória de resolver todos os problemas com as eleições sem precisar aprender a agir individual e coletivamente para lidar com os problemas nas ruas, bairros, casas, cidades, no campo e na floresta. 

Todos podemos atuar em diferentes contextos para buscar soluções para os desafios postos de acordo com nossas condições. Não assumir responsabilidade nesse sentido significa manter-se em uma situação de indiferença conivente com as mazelas que afetam primeiro e principalmente as pessoas e os seres mais vulneráveis, mas que em algum momento hão de afetar até mesmo os mais poderosos (que no momento apostam no sacrifício de pessoas para controlar a densidade demográfica e retardar os efeitos já acelerados do aquecimento climático sobre nossas condições de existência enquanto espécie). Se optarmos coletivamente pela indiferença, não será possível pedir “aos que vierem depois de nós” que sejam indulgentes. Para manter os pés na Terra precisamos parar de esperar um milagre, questionar a letargia e agir – já que a solução não cairá do céu.


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