MATÉRIA ESPECIAL

Muro de Berlim: queda do monumento símbolo da Guerra Fria completa 30 anos

Evento é um marco de ordem cultural, social e política na história do século XX.
Por: PORTAL JG - Juliano Amorim
Data de publicação: 10/11/2019 15h39

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Foto: Reprodução

Em 9 de novembro de 1989, durante uma conferência jornalística transmitida à televisão, o porta-voz do Partido Socialista Unificado Alemão (PSUA), Günther Schabowski, respondia, em tom solene, às perguntas de costume da imprensa, quando, por um deslize, ajudou a precipitar um dos eventos sociopolíticos mais importantes do século passado. As duras leis previstas aos alemães orientais, residentes no lado comunista, eram, naquele instante, abrandadas. Sem titubear, os que quisessem cruzar a rígida fronteira do muro, poderiam fazê-lo sem carecer de planos complexos, ou hesitar represálias do Estado policial. A liberdade, naquele instante, urgia do ato falho de uma autoridade, espalhando-se, como epidemia, entre os principais veículos de comunicação locais, que aproveitaram a deixa para informar seus cidadãos da boa nova: a Alemanha poderia voltar a ser uma só.

O que se pretendia naquela data, era, pois, comunicar uma mudança na política migratória utilizada no lado oeste de Berlim. Todavia, se, por obra do destino, Günther Schabowski estivesse em seu dia de sorte, a migração dos alemães orientais haveria de ser gradativa, seguindo a cartilha de transformações vividas pelos regimes comunistas de então, que, naquela época, puseram-se a tolerar certa abertura ao comércio, às liberdades civis e à liberdade política. Esta nova postura veio na esteira do que fora proposto pelo último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, com seu Glasnost (transparência) e a Perestroika (reconstrução), cujo intento era melhorar as condições econômicas e sociais do bloco soviético. O reformismo como nova ordem política não esteve circunscrito apenas à URSS, alcançando, também, países como a Hungria, então socialista, que não tardou em abrir as fronteiras com a Áustria, um país capitalista.

A ação encampada pelas autoridades húngaras, beneficiou, a reboque, os alemães orientais, que, vizinhos ao país, atravessaram-no a caminho do solo austríaco. Pelo menos 25 milhões de alemães, segundo estimativas, realizaram este deslocamento, onde pediram asilo na embaixada da Alemanha Ocidental, situada em Viena. O êxodo até a embaixada demarca uma etapa importante do que viria a culminar na derrubada do muro que dividiu a Alemanha em dois blocos, após o fim da Segunda Guerra Mundial. A deixa, ocorrida em novembro daquele ano, após a conferência de Günther Schabowski, foi o estopim para o afrouxamento da legislação migratória, derrogada às mãos do próprio povo, exausto de privações no âmbito social, político e territorial. 

A euforia coletiva, qual fosse uma febre, tomou os corações do povo, que mal poderia esperar por atravessar os limites entre aquelas duas Alemanhas. Os Checkpoints - locais de fiscalização do tráfego de pessoas e mercadorias -, se abriram pacificamente  por ordem do tenente-coronel Harald Jäger, supervisor do processo de controle dos passaportes. Em menos de uma hora, entre 23h30 e 0h15, pelo menos 20 mil pessoas cruzaram o Muro de Berlim de modo ordeiro. Em contrapartida, alemães, orientais e ocidentais, conjuntamente, cercaram parte do muro, portando pás, picaduras e outras ferramentas; dando início à quebradeira geral, tão logo replicada pelas TVs mundo afora, dando a impressão de haver, a quem assistia pasmado aquele rebuliço, uma brusca movimentação no estado de coisas do mundo conforme conhecido até então - e havia.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a ordem política esteve fragmentada em duas principais frentes ideológicas: à esquerda e à direita. De modo mais simples, capitalismo e comunismo davam o tom sob o qual os demais países, à sua maneira, deveriam se adequar. As convenções e tratados de política internacional tornaram nações fustigadas pela barbárie bélica em protetorados dos quais os países vencedores, tais como EUA, URSS e Inglaterra, deveriam se responsabilizar. A Alemanha, fragilizada após a guerra, viu-se sob julgo destes três países, juntamente à França, responsáveis pela divisão do território alemão em quatro zonas de influência. Em 1948, por desentendimento da União Soviética com as outras nações participantes do acordo, o Bloqueio de Berlim reduziu o comércio com os ocidentais. A formação da República Democrática Alemã, por influência soviética, no ano seguinte, aumentou as tensões que logo ocasionariam a criação de "faixas protetoras ao redor do território", culminando com a formalização da barreira física, na figura do muro, em 1961.

Após 28 anos, o Muro de Berlim foi à lona, de modo emblemático, na antessala do século XXI. Apesar da euforia popular, em novembro de 1989, a unificação alemã aconteceu apenas em Outubro de 1990, quase um ano depois. Pelas mãos de Helmut Kohl, chanceler alemão de 1982 a 1998, a abertura por completo das fronteiras aconteceu em 01 de julho de 1991. Apesar das diferenças na estrutura e no tecido social, ainda permanentes, a Alemanha se solidificou, nos últimos trinta anos, como um país politicamente ponderado e economicamente estável. O legado de seus anos difíceis prossegue enquanto lição para que as vindouras gerações possam saber o quão longe é possível ir em nome da fé cega em extremismos. A East Side Gallery, maior extensão do muro ainda existente, com 1,3 km, encontra-se de pé, colorida pelos grafites. Sua resistência ocorre para que não se deixe esquecer um capítulo importante da história recente do mundo. Tampouco para que a sociedade venha a se abster do valor de suas conquistas - aplacadas, por vezes, num gesto furtivo, sem que se perceba.





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