Durante a segunda quinzena de outubro, a agenda cultural maranhense contava, em sua programação, com um dos mais importantes carnavais fora de época do circuito norte-nordeste: o Marafolia. Tendo a sua primeira edição realizada em 1995, o evento não tardou a se consolidar perante o público, tomando conta de uma geração de brincantes, que, com avidez, esperava o momento e a hora de se divertirem em cada nova edição. Milhares de pessoas do Maranhão, entre outros estados, tomavam nota de marcarem presença na avenida Litorânea - paralela à praia -, e assim, por metros caminharem sob a profusão dos ritmos que ali se ouvia.
No Marafolia, o sincretismo entre o carnaval baiano - com seus trios elétricos - e a cultura de blocos maranhense, formatava o elemento peculiar que, por anos, destacou a festança de mera réplica da folia soteropolitana. Artistas como Ivete Sangalo, Harmonia do Samba, Cheiro de Amor, Timbalada, Asa de Águia e Chiclete com Banana davam substância à trilha sonora, em conjunto a participações locais, como o Bicho-Terra, que em nada fazia feio ao pelotão dos demais artistas. Cada atração a passar pelo "Corredor da Folia" - local em que trafegavam as multidões - entregava, no timbre de suas percussões, a agitação e a catarse com a qual os brincantes, às milhas, saltavam, por segundos, dor ar ao chão, em sintonia quase febril.
Dentre as marcas singulares do Marafolia, destacava-se o abadá: figurino cuja identificação situava o brincante acerca de qual bloco ele fazia parte. Havia hora e dia marcados para que fossem entregues àqueles que marcariam presença. Filas de entrega dos abadás eram costumeiras. O hábito de customização da indumentária também era corriqueiro, qual um distintivo, à moda de cada um dos foliões. A troca de abadás é lembrada até hoje, permitindo aos brincantes adentrar em cada um dos blocos, de modo improvisado, conforme o clima do momento.
Na música, o Marafolia trouxe artistas de envergadura, como Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown e Claudia Leitte. Mas, alguns blocos, com presenças cativas, eram certeiros em agitar as multidões. A banda Asa de Águia, capitaneada por seu vocalista, Durval Lelys, cumprira esta missão com êxito, em participações memoráveis. O grupo Timbalada, que, por vezes, era a derradeira apresentação, sabia deixar a saudade para os brincantes, empolgando seus sucessos no desfiladeiro, e, não raro, passando da hora prevista para se despedir. O Bloco "Nana Banana", da banda Chiclete com Banana, participou de todas as edições. O grupo, liderado por Bell Marques, continha, também, em sua formação Wadinho Marques, Rey, Waltinho Cruz e Deny. Hits como 100% Você, Voa Voa, Não Vou Chorar e Diga que Valeu trazem saudades para muitos, que de forma terna, podem, com essas músicas, recordar passagens marcantes em suas vidas.
Por questões judiciais, referentes ao meio ambiente - vinculados ao local de realização do evento -, não houve prosseguimento nas edições do Marafolia. Tentativas de viabilizá-las, na última década, foram empreendidas, mas sem sucesso. O Marafolia, hoje, é privilégio a ser vividamente recordado por aqueles que participaram da festança nos anos 1990 e 2000. E escrito, porém, para que dele não se esqueça.
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