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Verso e prosa: a literatura e seus reflexos

Por: Adonay Moreira
Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão e autor de cinco livros, entre poesia e prosa: Sentimentos (poesia/2011), Poemas (poesia/2012), O Livro dos Poemas Invisíveis (poesia/2015), O Labirinto (prosa/2015) e Sobre Luzes e Sombras (poesia/2017). Foi ganhador, em 2013, do 35º Concurso Literário Cidade de São Luís, com a novela O Labirinto. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (PGCULT) da UFMA.


Um caminho para Deus


Data: 23/08/2020 09:17

Reprodução

A poderosa mensagem dirigida a Nicodemos no livro de João (João 3: 2,8) ainda chega aos nossos ouvidos com uma força prodigiosa. Ela lhe foi dirigida por Cristo quando, em uma noite em Jerusalém, estando ali Jesus pela festa solene da Páscoa, esse inquieto fariseu, perturbado pelos milagres realizados pelo Nazareno, vai procurá-lo, em busca de uma resposta às suas inquietações. O diálogo entre eles encerra uma lição que, dois mil anos depois, ecoa pela vastidão das almas, consolando-as ou as atormentando mais ainda, como um rigoroso e necessário chamado à vida do espírito e à lembrança de que a experiência da vida humana, qualquer que seja a concepção que um homem tenha sobre ela, guarda em seu seio uma centelha divina que, se não alimentada, abre aos seres humanos o abismo de uma existência pautada pelos impulsos mais rasteiros e vis, cujo fim não é senão o mais torpe aniquilamento. 

“Rabi, sabemos que és Mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu, e lhe disse: Na verdade, na verdade, te digo, que não pode ver o reino de Deus, senão aquele que renascer de novo. Nicodemos lhe disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer outra vez? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo, que quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne: e o que é nascido do espírito, é espírito. Não te maravilhes de eu te dizer: Importa-vos nascer outra vez. O espírito assopra onde quer: e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que é nascido do espírito”. 

A qualquer indivíduo, mesmo ao menos crédulo dos homens, essas palavras revelam uma mensagem que, se vivida no íntimo de cada um, pode significar a diferença entre a salvação e a condenação eterna. De fato, a dúvida de Nicodemos aponta para o assombro de uma crença que, ainda que posta ante a verdade dos fatos, necessita de algo a mais para convencer-se de sua verossimilhança. Esse “algo a mais”, que lhe alicerça o caminho para Cristo, faz de Nicodemos um personagem extremamente atual, um símbolo de uma fé ainda imperfeita, por vezes hesitante e ingênua, para a qual a procura de Deus é o único remédio viável e definitivo. 

Muitos homens peregrinaram rumo a essa resposta e, ao contrário de Nicodemos, que pôde ouvir dos lábios do próprio Cristo essas palavras imortais, esses outros peregrinos do espírito não podem contar senão com a solidão de seus pensamentos e o registro dessas mesmas palavras, tornando essa tarefa ainda mais árdua e cansativa. Entanto, essa busca selou o destino do Ocidente e, de Nicodemos até nós, todos os grandes espíritos foram, de alguma forma, tocados por essa inquietante chama, que arremessa a alma dos homens à mais profunda de suas meditações: o mistério da morte. 

Houve indivíduos prodigiosos que, em nome dessa busca ou mesmo através de sua negação, foram capazes de criar obras que passaram incólumes pela escuridão dos séculos, na criação das quais, como aquele ingênuo rouxinol de Oscar Wilde, devotaram todo o seu sangue e espírito. Os exemplos são muitos e chegam a ser mesmo inumeráveis. Porém há um homem em particular para quem as palavras de Cristo são verdadeiramente essenciais e definem a sua própria vida e a quem, assim como o inquieto Nicodemos, a procura pela verdade o fez peregrinar em meio a uma noite interminável, à busca de um Cristo que não mais poderia encontrar pessoalmente, mas em quem acreditava com um ardor que chega a ser tocante. Seu nome: Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. 

O século XIX está intimamente ligado à presença de Dostoiévski. Nenhum outro autor soube, como ele, reunir em si todas as inquietações humanas e refleti-las com a mesma nitidez de uma imagem no espelho, com todas as suas possíveis imperfeições e cicatrizes. Desde Shakespeare, a alma humana raras vezes foi posta à luz com tanta precisão quanto nos inquietantes enredos desse homenzinho atormentado, contraditório e doente, cujos personagens, geralmente seres tão miseráveis e degradados quanto ele, perambulam pela vida como estranhos animais acuados, mergulhados nos abismos mais profundos, perseguidos por pensamentos que, por vezes confusos, esgotam-lhes toda a força vital. Somente Tolstói pode reivindicar esse mesmo prestígio e essa mesma força avassaladora e humana que fizeram do atormentado Fiódor um dos desbravadores mais competentes da complexa experiência humana sobre a terra. A comparação entre esses dois artistas é inevitável, ainda que haja entre eles uma grande diferença. Entanto, há um fio comum que conduz a obra desses dois mestres do espírito a uma mesma direção, e ele foi notavelmente estudado por George Steiner, cujo ensaio “Tolstói ou Dostoiévski” é uma das mais bem-acabadas meditações acerca desses autores, alicerçada sobre uma erudição luminosa, erudição essa que torna o mestre francês um dos críticos mais admiráveis do século XX. As palavras de Steiner são cirúrgicas:

“As mitologias centrais nas obras e vidas pessoais de Tolstói e Dostoiévski são religiosas. No decorrer de suas vidas, os dois romancistas lutaram com o anjo, cobrando dele um mito coerente de Deus e uma avaliação verificável do papel de Deus no destino do homem. As respostas que eles obtiveram de seu questionamento passional são, se eu os compreendo corretamente, irreconciliáveis. As metafísicas de Tolstói e Dostoiévski se opõem mutuamente como a morte e o sol da famosa imagem de Pascal a respeito do eterno antagonismo. Além do mais, elas prefiguram uma divisão radical de intenção, que se encontra subjacente nas guerras ideológicas e quase religiosas do século XX. A contrariedade entre as interpretações tolstoianas e dostoievskianas do mundo e da condição do homem são encarnadas em, e expressas através de, seus métodos contratantes enquanto escritores de ficção. As mitologias irreconciliáveis apontam para formas de arte contrastantes”.   

Steiner está completamente correto e seu diagnóstico toca em pontos centrais desses romancistas. Entanto, a divergência quanto ao fim ao qual chegaram as suas investigações não entra aqui em questão. O que interessa é, sobretudo, o ponto do qual partiram e, no caso particular de Dostoiévski, como essa busca e essa constante luta com o anjo marcaram de modo indelével a sua vida. O século XIX é particularmente sensível às grandes questões religiosas. É o mesmo século de Nietzsche, Darwin e Marx, autores cujas obras, voluntária ou involuntariamente, lançaram contra a velha sabedoria judaica os ataques mais mordazes e, por vezes, ingênuos e mal formulados. Dos três, Nietzsche certamente é o mais célebre, e reivindicou a si a tarefa de anunciar, através de seu Zaratustra, a morte de Deus. Seus argumentos não são de todo convincentes, ainda que, ao que parece, fossem dolorosamente sinceros. Entanto, a validade de suas conclusões não está aqui em debate. 

Dostoiévski não fugiu a essas grandes questões e não poderia mesmo fazê-lo. Assim como seus conterrâneos mais célebres, a intensa vida intelectual de seu século deixou-se refletir em seus livros. Mas, ao contrário do que ocorreu a esses mesmos conterrâneos, cujas obras dialogam com este ou aquele credo em particular, como, por exemplo, o apaixonado niilismo do jovem Bazárov em contraste com a velha tradição russa, presente no romance “Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev, ao contrário disso, a obra de Dostoiévski não marca apenas o ápice da adesão a um pensamento ou a alguma corrente ideológica em vigor. Ela inaugura uma nova fase do romance no Ocidente, alterando para sempre a maneira com a qual seus sucessores se relacionariam com esse gênero escorregadio. O preço pago por tal façanha pode ser verificado no imenso caos que foi sua vida e sobretudo nos grandes dilemas metafísicos por ele vivenciados. 

Dostoiévski está longe de ser um profeta. Foi, acima de tudo, um profundo crente, um homem profundamente marcado pela busca de Deus, um espírito apaixonado no qual se refletiu o grande dilema da crise religiosa de seu século, a ponto do paraense Virgínio Santa Rosa dar ao seu célebre estudo sobre o grande romancista o título de “Dostoiévski: um cristão torturado”. A definição não poderia ser mais precisa. E, ao contrário do que possa parecer, não encerra nenhuma contradição. Os caminhos que levam a Deus não estão tão previamente definidos, como pode a princípio parecer. “Há tantos quanto os homens”, afirmou certa vez um teólogo tão exigente quanto Joseph Ratzinger quando foi confrontado com essa questão. Se isso é verdade, não é difícil notar que o caminho escolhido por Dostoiévski foi marcado pela mais intensa negação. Nela, fica evidente que esse grande torturado não ambicionava encontrar, senão, uma resposta que satisfizesse as suas tão violentas inquietações. 

Esse caminho foi construído devagar, em uma lenta marcha rumo ao seu próprio espírito. E, ainda que certos traços desse dilema possam ser notados em seus primeiros livros, cujos personagens ainda visivelmente românticos já se encontram às voltas com a solidão, o abandono e as angústias da existência, como é o caso do personagem Sonhador de seu romance “Noites Brancas”, cuja peregrinação por São Petersburgo já deixa antever essa longa marcha noturna que seu autor iria realizar, Dostoiévski só se tornaria o grande romancista que o mundo conhece após os anos passados na Sibéria, na Fortaleza de Pedro e Paulo, condenado à morte após um processo que se estendeu de 30 de setembro a 16 de novembro de 1949, acusado de conspiração contra o czar Nicolau I. A pena, entanto, foi perdoada pelo czar, comutada para trabalhos forçados, mas esse anúncio só seria feito diante do pelotão de fuzilamento. Era a ressureição da qual falou Cristo, e, sem ela, Dostoiévski dificilmente se tornaria o grande psicólogo no qual se tornou. Durante os anos em que viveu na prisão (1949-1954), o grande romancista dedicou-se apenas a uma leitura: o Evangelho, o qual lhe fora dado por Natália von Vizin, a mesma senhora a quem escreve uma de suas confissões mais tocantes:

“Deus me envia às vezes instantes de perfeita calma... em que tudo para mim é claro e santo. Esse credo é simples: crer que não há nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais razoável, de mais viril, de mais perfeito que o Cristo: ... E mais, se me provassem que o Cristo está fora da verdade, que é certo que a verdade está fora do Cristo, eu preferia ficar com o Cristo a ficar com a verdade”.  

Poucos homens chegaram a uma crença tão profunda e sincera como esse triste réu, cuja identificação com Cristo, o maior de todos os condenados, persistiria até o fim de sua vida. Dostoiévski iniciava, assim, seu verdadeiro caminho rumo a Deus. Já em “Recordações da Casa dos Mortos”, livro que começa a escrever cinco anos após sua libertação e que retrata a miserável vida na Sibéria, pode-se notar, apesar do horror das cenas e ambientes descritos, aquela mesma piedade pelo gênero humano tão comum entre os autores russos, presente em Pushkin, Gogol, Turguêniev, Tchekhov, Gorki e Tolstói. Em todos os seus grandes livros posteriores, essa piedade se mostrou marcante. Sônia, a desgraçada jovem que foi levada à prostituição para salvar da ruína sua família, e que apresenta ao assassino Raskolnikov o caminho para o Evangelho, é um dos seus mais comoventes elogios à fé. E não é mera coincidência que esse foi o nome escolhido para sua filha, que infelizmente veio a falecer prematuramente. De igual forma, o príncipe Míchkin, personagem central de seu romance “O Idiota”, não encarna, senão, aqueles mesmos ideais cristãos que Dostoiévski tão silenciosamente cultivou em seus anos de forçado. Míchkin é risível, por certo, e abre espaço para que muitos usem-no como trampolim para suas gargalhadas. Mas sua comicidade não provém de outra parte a não ser de um mundo para o qual a bondade e a ingenuidade são impossíveis.

Tornou-se célebre a interpretação dada por Sartre, em “O Existencialismo é um Humanismo”, à famosa frase de Ivan Karamazov, “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Segundo o autor de “O Ser e o Nada”, ela encerra uma afirmação e, portanto, poderia ser entendida da seguinte forma: Deus não existe, logo tudo é permitido. Essa afirmação, é preciso reconhecer, adapta-se muito bem ao tipo de existencialismo pregado por Sartre, mas não expressa o sentido que Dostoiévski quis atribuir a essa inquietante sentença. Ivan Karamazov não é, certamente, o mais abalizado teólogo de seu tempo, como qualquer leitor poderá notar, o que por si só já abre espaço para se pôr em xeque o alcance de suas palavras. Entanto, se o levarmos a sério, seu enunciado aponta, antes de tudo, para o perigo a que se está submetido quando se retira do horizonte humano toda a possibilidade de transcendência, condenando toda a existência a um materialismo sufocante. Se tudo de fato fosse permitido, a vida humana se encontraria sujeita a todo tipo de horror e seriam justificadas as tragédias mais terríveis, e o próprio século XX deixa claro que, se a interpretação de Sartre for de fato válida, ela jamais deveria sair dos estreitos limites de sua teoria.

O próprio Dostoiévski presenciou e viveu intimamente as agruras do horror, cuja descrição profunda não foi, senão, uma consequência de seu renascimento. Parece pouco provável que um homem com sua experiência e dotado de grande consciência e sensibilidade oferecesse como resposta aos males humanos uma pretensa ilusão de liberdade, cujo percurso histórico não produziu e não produziria senão o terror. Seu caminho rumo a Deus estava traçado, ainda que ele o fizesse através de intensas negações, que são, entanto, apenas poderosos pretextos para que ele discutisse e colocasse em ação seus tão complexos dilemas. No fundo, é como se ele nos dissesse, tal como Cristo a Nicodemos: “Não te maravilhes de eu te dizer: Importa-vos nascer outra vez. O espírito assopra onde quer: e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que é nascido do espírito”. 

 O conselho é válido. Ele possibilita que a alma humana desperte de seu sono terreno e busque seu verdadeiro lar, percorrendo o seu próprio caminho, que pode ser tanto um poema de Shakespeare, uma composição de Schubert ou um belo quadro de Ticiano. No caso de Dostoiévski, seu caminho tinha como fim o Cristo, o mesmo Cristo ao qual sempre se apegou e o qual um dia ambicionava encontrar. Talvez seja essa a razão que o levou a escolher uma das mais célebres citações do Evangelho de João (João 12: 24, 26) como epígrafe de seu mais importante romance, “Os Irmãos Karamázov”. A lição é esplendorosa, proferida por Jesus pouco antes de sua Paixão, e na qual o Filho de Deus anuncia que já é chegada a hora em que “será lançado fora o príncipe deste mundo”. A passagem é belíssima e, completamente transcrita, põe-nos ante o verdadeiro Dostoiévski. 

“Em verdade, em verdade, vos digo, que se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer: fica ele só; mas se ele morrer, produz muito fruto. O que ama a sua vida perdê-la-á: e o que aborrece a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me: e onde eu estiver, estará ali também o que me serve. Se alguém me servir meu Pai o honrará”.   

O homem está aí exposto, ainda que não totalmente revelado. Mas, afinal: a quem interessaria desvendar completamente a alma humana? A esperança da vida reside precisamente no mistério. E, enquanto existirmos sobre a terra, ele jamais será revelado.  


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