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Verso e prosa: a literatura e seus reflexos

Por: Adonay Moreira
Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão e autor de cinco livros, entre poesia e prosa: Sentimentos (poesia/2011), Poemas (poesia/2012), O Livro dos Poemas Invisíveis (poesia/2015), O Labirinto (prosa/2015) e Sobre Luzes e Sombras (poesia/2017). Foi ganhador, em 2013, do 35º Concurso Literário Cidade de São Luís, com a novela O Labirinto. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (PGCULT) da UFMA.


O Anjo de Praga


Data: 26/07/2020 11:03

Reprodução
Reprodução

A brutal e agonizante tragédia de Sodoma e Gomorra não se deu de repente. Ela foi anunciada por Deus durante a Sua visita a Abraão e antecedida pelos devotos pedidos desse mesmo profeta, que, em nome dos possíveis justos daquelas cidades, clamou piedade àquelas infelizes criaturas, cujas vidas grosseiramente corrompidas e pecaminosas levaram o Senhor a castigá-las impiedosamente. Essa lenta marcha rumo à noite chegou ao início de seu fim em uma tarde escandalosamente sólita, na qual dois anjos se fizeram presentes em Sodoma, indo em seguida hospedar-se na casa de Ló, a seu convite, passando aí toda a noite, durante a qual foram perturbados pelos habitantes da cidade, que os queriam submeter às suas práticas promíscuas, sendo por isso feridos de cegueira pelos enviados celestes. Eles eram os mensageiros dos Céus e traziam em seus lábios a certeza do triste veredito destinado àqueles homens e mulheres que, talvez pegos de surpresa, sucumbiriam no dia seguinte ante a terrível chuva de fogo e enxofre caída do céu, fazendo com que os gritos de horror e desespero ofuscassem a leve luz daquela distante manhã. 

A triste e fatídica história dessas cidades não paira isolada na extensa galeria dos dramas humanos. Ela convive com um número nada vulgar de outras atrocidades nas quais, culpados ou não, os infelizes e orgulhosos representantes do gênero humano são trucidados, reduzidos à total miséria ou abandonados às torturas e aos terrores mais desprezíveis. Como todas as grandes catástrofes, ela foi anunciada previamente e, como sói acontecer nesses casos, seus mensageiros foram categoricamente ignorados, em um inconsciente convite ao terror. 

Em cada período distinto, esses mensageiros retornam, e seus augúrios e presságios nem sempre são os mais animadores, fazendo com que sua nobre atividade, que nunca foi de fato digna de muita consideração, cada vez mais se tornasse ignorada e periférica, condenando seus fiéis praticantes quase à total marginalidade ou ao completo ostracismo, com um destino por vezes não muito melhor do que a sina daqueles aos quais vêm profetizar. Como carteiros ignorados e incômodos, cujos bolsos carregam o selo de nosso destino, esses indivíduos convivem anônimos ao nosso redor e talvez se escandalizem com a assombrosa indiferença que destinamos às suas tão valiosas mensagens. Entanto, sua correspondência é rigorosamente entregue aos destinatários de cada época. Da nossa, coube a Franz Kafka encarregar-se. 

Kafka não fugiu ao cruel destino que, em seu século, estava reservado aos judeus. Ainda que não tenha perecido em algum campo de concentração, como ocorreu às suas três irmãs, Elli, Valli e Ottla, sua vida não deixou de ser um breve e intenso holocausto, no qual ele foi, a um só tempo, vítima e carrasco. Longe de ignorar a sua sina, o excêntrico e retraído romancista de “O Processo” sempre buscou companhia para suportar os maus augúrios de sua própria ruína, ainda que suas tentativas sempre tenham resultado em flagrantes insucessos. Em uma das anotações de seu diário, ponderando sobre as vantagens e as desvantagens do matrimônio, ele escreve: 

“L. Impossibilidade de suportar a vida sozinho, o que não implica em impossibilidade de viver, muito pelo contrário, é até mesmo improvável que eu saiba como viver com alguém, mas sou incapaz, sozinho, de suportar o assalto de minha própria vida, as exigências de minha própria pessoa, os ataques do tempo e da velhice, a vaga pressão do desejo de escrever, a insônia, a proximidade da insanidade - não posso suportar tudo isso sozinho. Naturalmente acrescento um ‘talvez’ a isso. A ligação com F. me dará mais resistência”. 

Os pormenores dessa conturbada relação com Felice Bauer podem ser observados nas famosas cartas que o escritor lhe destinou e que por ela foram vendidas ao editor do romancista, vindo à luz 43 anos após a morte de seu remetente, servindo de preciosa fonte para os inumeráveis leitores e estudiosos de sua obra, como o demonstra o célebre ensaio de Elias Canetti, denominado “O outro processo – cartas de Kafka a Felice”, reunido no magistral volume “A consciência das palavras”.    

A presença de Kafka em todo o século XX é esmagadora. Nenhum outro escritor se lhe compara nesse quesito. Ainda que esse também tenha sido o século de Joyce, Proust, Brecht, Beckett, Pound, Eliot e Borges, mestres cujas obras redesenharam a literatura no Ocidente, é pouco usual, como bem notou Harold Bloom, ouvirmos falar que essa fatídica época tenha sido a era de Pound ou de Brecht, e o adjetivo “proustiano” não atinge os nossos ouvidos e a nossa consciência com a mesma força e terror com que se nos revela a palavra “kafkiano”. Aliás, Kafka é mesmo um dos seletos membros de um grupo de autores cujo nome define um período e já está enraizado no imaginário comum, tal como Dante, Shakespeare, Cervantes e Dostoiévski. As razões para semelhante fato são as mais variadas possíveis. Não está, entanto, ao alcance de nenhum homem desvendar os caminhos através dos quais um artista é capaz de se comunicar com os espíritos e corações de outras épocas. Esse diálogo silencioso, que ecoa impassível pela escuridão dos séculos, como uma paciente luz que marcha no escuro, esse diálogo possui leis próprias, cujos mecanismos internos a débil racionalidade humana ainda está longe de conceber e avaliar, talvez porque, tal como no célebre verso de Eliot, a espécie humana não suportaria tanta realidade.

O que mais assombra em Kafka não é nenhum novo uso da linguagem, nenhuma nova técnica de escrita ou algum elaborado labirinto narrativo. Seus textos não apresentam, nesse sentido, nenhuma originalidade, nem ele se preocupou com isso. Como bem lembrou Elias Canetti em sua bela conferência sobre o escritor austríaco Hermann Broch: “É sabido que não se pode exigir originalidade. Quem pretende possuí-la jamais a possui, e as tolices fúteis e cuidadosamente planejadas com as quais alguns esperavam impor-se como originais estão certamente presentes em nossas mais penosas recordações”.

E nisto consiste precisamente o grande assombro de sua obra: a extrema e por vezes inquietante normalidade de seus relatos, que chegam a causar embaraço de tão simples e realistas, o que levou um de seus mais renomados comentadores a afirmar: “Em Kafka, o inquietante não são os objetos nem as ocorrências como tais, mas o fato de que seus personagens reagem a eles descontraidamente, como se estivessem diante de objetos e acontecimentos normais”.  

Essa frase de Günther Anders, que, ao lado de Walter Benjamin, Albert Camus e Theodor Adorno foi um dos mais argutos críticos da obra kafkiana, põe a nu um dos pontos centrais da escrita de Kafka. Mesmo os seus textos mais atrozes são descritos como acontecimentos absurdamente banais e rotineiros, como um passeio à tarde ou a ida ao cinema. Esse traço é particularmente visível na fábula “O Abutre”, escrita alguns poucos anos antes de seu falecimento, e chega a ser embaraçosa a normalidade com que o narrador desse pequenino relato nos conta a tortura que lhe é infligida por um abutre, que impiedosamente lhe devora os pés, em uma clara e dramática alusão ao mito de Prometeu, o desgraçado mensageiro que trouxe o fogo aos homens.    

Kafka também foi um mensageiro. Talvez daí provenha a grande e imperturbável segurança de seus relatos. Como os anjos enviados a Sodoma, esse pequenino judeu trazia nos bolsos de seu casaco as perturbadoras imagens que seriam exibidas no decorrer de todo o século XX, sobretudo as que se referem ao seu povo, o qual, desde a fuga do Egito, ainda continua em sua eterna marcha rumo à terra prometida. A ideia de que um artista pode, de alguma forma, intuir o destino de um povo ou de uma cultura não é uma descoberta do século XX. Já Shelley, que viveu entre o fim do século XVIII e início do XIX, havia afirmado, em seu arguto ensaio “Uma Defesa da Poesia”, que os poetas são os legisladores e profetas de seu tempo, cujas obras constituem verdadeiras antenas que captam a rarefeita atmosfera do futuro. A tese pode ser passível de alguma objeção, é certo. Entanto, se tivermos sinceridade e coragem suficientes, chegaremos sem muito esforço à conclusão de que, entre os relatos kafkianos e a história do século XX, há uma semelhança no mínimo constrangedora. O medo e a indiferença, dois dos sentimentos presentes em Kafka, são talvez duas das grandes características de nosso tempo. Como não ver em obras como “Na Colônia Penal”, “O Processo”, “O Castelo”, “A Metamorfose”, “Carta ao Pai” e “Um Artista da Fome” uma antecipação dos trágicos episódios que marcariam a perturbadora história do século XX? Nenhum outro artista moderno representou tão bem uma época quanto esse pequenino judeu de Praga. 

 Bem certo que, em matéria de profetas, o século XX pôde contar com um número razoável de exemplares. Artistas como Cézanne, por exemplo, também revelaram em suas obras algumas das trilhas que posteriormente seriam seguidas nesse vasto labirinto que é a contemporaneidade. É impossível não relacionar sua dissolução das formas, esse jogo cromático no qual as imagens parecem evaporar-se, diluídas em tons que apenas nos sugerem a antes inabalável concretude da realidade, apresentando as paisagens e os seres quase sob a perspectiva de um míope, como são exemplos quadros como “Uma Olímpia Moderna”, “A Casa do Enforcado” e “Monte Santa Vitória”, este último sendo-lhe quase uma obsessão, é impossível não relacionar tudo isso a uma lenta e preocupante desumanização do mundo. Essa dissolução das formas, que também está presente em Van Gogh e em Picasso, atingindo o ápice nos trabalhos do russo Malevich, cuja tela “Quadro Branco sobre Fundo Branco” é uma inegável prova da descaracterização dos traços humanos sobre a face da terra, essa dissolução é, inegavelmente, uma das mais sugestivas mensagens dirigidas ao futuro de um povo, o qual a ignorou com o mesmo sarcasmo habitual reservado àqueles que ousam abalar a fé no progresso.

Entanto, nenhum desses artistas foi tão completo quanto Kafka, cuja síntese narrativa e o próprio caráter fragmentário de sua obra já são, por si sós, sintomas do que estava por vir. Consciente que era de sua fraqueza, ele jamais ignorou esse fato. Mesmo sabendo o alto preço cobrado por tamanha façanha, atirou-se de corpo e alma ao seu trabalho. Assim como Prometeu, acabou sendo vítima de sua própria mensagem, mas um artista nunca foge de seu destino. São como mariposas que, ainda que destruídas pela luz, avançam sobre ela apaixonadas, em um jogo cuja aposta não é senão a sua própria vida.

Kafka sintetizou a precariedade de seu século em muitos relatos, e sobretudo em seus textos mais curtos residem, por vezes, as tramas mais reveladoras. Assim é a fábula “Um Fratricídio”, cujo personagem Pallas, que assiste passivo e contente a um assassinato com a mesma tranquilidade com que se vê um espetáculo teatral ou um programa de TV, é um modelo exemplar das silenciosas testemunhas que, por omissão, possibilitaram e possibilitam algumas das tragédias mais caras à modernidade. Porém em nenhum outro texto o anjo de Praga foi tão lapidar quanto em “Pequena Fábula”. O relato é demasiadamente curto e extremamente importante para não ser transcrito. Suas linhas são um resumo da própria obra kafkiana. Elas narram o seguinte:

‘“Ah’, disse o rato, ‘o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro’. - ‘Você só precisa mudar de direção’, disse o gato e devorou-o". 

Assim como esse pequenino roedor da fábula, pouco ou nada nos resta a fazer. Há sempre um inimigo à nossa espera ou batendo à nossa porta. Kafka foi mesmo o maior mestre moderno da suspeita, cujos personagens vivem sempre à sombra de algum perigo que repousa oculto, mas sempre vigilante, para que, ao menor sinal de fraqueza e vacilação, possa lhes arrebatar. A mensagem de sua obra é mais do que clara, porém passou despercebida durante a curta vida de seu autor, cuja existência confirmou ainda mais a fatídica sina dos profetas.

Nosso assombro com Kafka é, acima de tudo, uma constrangedora e involuntária confissão, pois perturba-nos ver como um artista conseguiu saber tanto e de modo tão profundo sobre nós. Suas obras são como magníficos espelhos, cujas imagens refletem as vergonhosas chagas presentes em nossa nudez, as quais tentamos, em um esforço malogrado, ocultar. Entanto, qualquer tentativa de ocultação é apenas um devaneio inútil. Kafka conseguia ver as deformações que, para nós, ainda não são visíveis e, tal como no caso dos anjos de Sodoma, essas deformidades já estavam presentes na mensagem que nos veio anunciar. Seria apenas uma questão de tempo para que elas também estivessem gravadas em nosso corpo, como aconteceu àquele miserável condenado descrito na novela “Na Colônia Penal”.

O que perturba em todo esse drama é que muitas dessas mensagens a nós dirigidas ainda não foram de todo reveladas. Muitos de seus intricados enigmas permanecem indecifráveis, desafiando nossa inteligência, imaginação e sensibilidade, o que torna o embaraço ante seus textos algo totalmente compreensível e perdoável. No fundo, em se tratando de Kafka, em nenhum lugar estamos completamente seguros. Como ele mesmo confessou ao seu amigo Max Brod: “Há esperança suficiente, infinita - mas não para nós”. Seja lá o que for que queira dizer, essa frase é particularmente assombrosa para o nosso tempo, em direção ao qual marcham as nuvens mais negras e tenebrosas. Em todo caso, resta- -nos apenas torcer para que, ao menos nesse caso, o anjo de Praga esteja totalmente equivocado.  


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