Em 26 de setembro de 1969, uma sexta-feira, as lojas de disco punham à venda o mais novo lançamento do quarteto de Liverpool, "Abbey Road." Com uma capa inusual, na qual John Lennon, Ringo Starr, Paul McCartney e George Harrison, respectivamente, atravessavam a faixa de pedestres em frente ao lendário estúdio de Abbey Road - onde gravavam -, e que serviu de inspiração para o título homônimo do mesmo projeto.
A mudança perceptível na sonoridade do grupo, condensada em 17 faixas, fora um reflexo de maturação estética, resultado do que havia de mais moderno em técnicas de gravação, além do desenvolvimento individual de cada um dos quatro compositores. Os Beatles, naquele ano, seguiam por um caminho de incertezas, com dois projetos mal sucedidos. O primeiro deles foi "Yellow Submarine." O álbum seria parte da trilha sonora do filme de mesmo título, lançado em julho de 1968. Entre canções antigas e trilhas compostas pelo produtor George Martin, músicas como "All Together Now (Lennon/McCartney)" e "Hey Bulldog (Lennon/McCartney)" apareceram, ao lado de "It's All Too Much" e "Only a Northern Song", ambas de Harrison, sendo a última descartada de projetos anteriores. O trabalho não possuiu empenho comercial da banda, e, como parte disso, não figurou entre o topo das paradas britânicas e americanas, sendo considerado aquém de tudo o que o grupo fizera.
Outro projeto pouco exitoso foi "Get Back" (volte, em tradução livre), uma ideia, como sugere o título, de volta às origens, proposta por McCartney, logo nos primeiros dias do ano. O projeto consistia em um retorno do grupo para uma sonoridade mais simples, com novas canções, acompanhadas da promessa de um concerto, após três anos sem apresentações ao vivo. A ideia também incluía as filmagens das sessões de gravação, com o objetivo de, eventualmente, lançar o material como um filme.
O que se notou como resultado, porém, mesmo nas filmagens, era a dispersão dos membros, com pouco empenho e algumas discussões. Harrison, no decorrer do processo de feitura do novo disco, abandonou a banda por alguns dias, sendo convencido a voltar após uma conversa com os demais membros. Com a paz selada entre eles, no dia 30 de janeiro de 1969, os Beatles realizaram seu último concerto ao vivo, por sobre um telhado. A gravação, registrada em vídeo, se tornou cultuada ao longo dos anos, com destaque a forma com a qual o show foi encerrado, sob intervenção policial, com fins de evitar situações indesejadas, em virtude da multidão que, aos poucos, se aglomerava no local.
As sessões de gravação de “Abbey Road” finalmente começaram em abril de 1969. A primeira gravação do grupo foi “I Want You (She’s so Heavy)”, mas devido ao perfeccionismo de Lennon, autor da canção, sua versão definitiva só ficou pronta em Agosto, após adição de overdubs. “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam”, também de autoria de John Lennon, eram trabalhos antigos datados do período em que os Beatles estiveram em viagem à Índia, em 1968.
"Something" e “Come Together”, porém, eram exemplos de trabalhos totalmente inéditos, ambas sendo lançadas como singles de sucesso, no topo das paradas. A surpresa veio por George Harrison - autor de "Something" -, que, naquele momento, mostrava-se em pé de igualdade com John e Paul, conseguindo, inclusive, emplacar outro sucesso definitivo na carreira do grupo, também presente em Abbey Road: "Here Comes the Sun."
Paul McCartney, por sua vez, esmerou-se em composições como "Maxwell's Silver Hammer", que Lennon ironicamente dizia tratar-se de uma das "músicas de vovó do Paul", recusando-se, inclusive, a gravar nos outtakes da faixa. "Oh, Darling", com estilo vintage e vocal mais rasgado, também trouxe problemas para a dupla de compositores. John a considerava essencial para seu estilo de canto, enquanto McCartney perseguia, no estúdio, a forma definitiva de cantá-la, conseguindo, ao fim, após exaustivas tentativas.
Dentre as ideias de Paul, sua ação mais ousada veio em conjunto com o produtor, George Martin. Ambos construíram, na segunda metade do disco, um "medley" com diversas canções inacabadas, a fim de trazê-las a sensação de serem todas uma só. A ideia, bem sucedida, ganhou aplicação, resultando na colagem de faixas que se estende de "You Never Give me Your Money" - canção de McCartney alfinetando o então empresário da banda, Allen Klein -, até "The End." Nesta última faixa, um duelo de guitarras entre George, Paul e John, com um solo de bateria consistente de Ringo. A frase: "And in the end, the love you take is equal to the love you make", era o recado que encerrava o último e mais sólido trabalho dos Beatles. O fim do sonho, como vaticinado por Lennon, em uma de suas letras mais ácidas e confessionais.
Mesmo 50 anos depois, Abbey Road continua despertando a atenção de admiradores em todas as cidades. O local onde a icônica foto da capa - de autoria de Iain Macmillan, amigo pessoal de John Lennon e Yoko Ono - foi tirada, continua atraindo fãs e admiradores de todo mundo. A imagem é um dos símbolos mais conhecidos da cultura pop, quiçá figurando entre as mais marcantes fotos do século XX. O disco, na condição de cinquentenário, ganhará uma reedição especial nesta sexta (27) com todas as músicas remasterizadas, além de novas versões - algumas inéditas. A produção do novo trabalho fica por conta de Giles Martin, filho de George Martin, produtor do álbum original.
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